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Dona Leitura - livros e devaneios

Este sítio na vasta internet pretende ser uma partilha das minhas opiniões, sinceras mas polidas, sem qualquer rigor de qualquer espécie, sobre os livros que vou lendo e também outras divagações.

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Este sítio na vasta internet pretende ser uma partilha das minhas opiniões, sinceras mas polidas, sem qualquer rigor de qualquer espécie, sobre os livros que vou lendo e também outras divagações.

12.02.24

A Gorda, Isabela Figueiredo, 2016

A vida de uma mulher apaixonada.


Dona Leitura

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Finalmente, depois de meses em fila de espera na biblioteca, chegou a minha vez de ler "A Gorda" e de conhecer Isabela Figueiredo enquanto escritora.

Durante a minha imersão, fiquei com a sensação de estar a ler a própria vida da autora, sentia muita verdade nos acontecimentos, como se o livro me palpitasse nas mãos e fosse o desabafo de uma amiga, uma irmã ou uma prima. Pelas minhas supérfluas investigações à posteriori, descubro que tem de facto um punho forte de autobiografia.

Esta é uma história contada na primeira pessoa, que vai da pré-adolescência à idade madura. A narrativa é protagonizada por uma gorda, mas isso é para mim um fator irrelevante, embora influencie alguns episódios.  Aqui ser gorda é uma característica, representativa de uma diferença que está para além dos parâmetros do socialmente aceite. Os acontecimentos são transversais a qualquer cidadão.

Eu senti-me como se espreitasse pela vida da pessoa que vive no 4ª esquerdo do edifício em frente a mim. Daquelas vidas que imagino a acontecer nas dezenas de prédios por que passamos, indiferentes, no caminho para o trabalho. Ou quando vamos no comboio e nos pomos a idealizar como será a vida da pessoa que se sentou à nossa frente, cheia de tralha e ar alheado. O ponto central da narrativa é a obsessão por David, um amor com avanços e retrocessos, que a nossa Maria Luísa nunca ultrapassa, mesmo quando se convence que sim.

Maria Luísa, filha única, vêm para Portugal após a descolonização, sozinha, pequena, onde vive em casa de familiares uma parte e outra num colégio, durante os 10 anos que a separam da chegada dos pais. Este acontecimento evidentemente marcante, poliu a sua personalidade, de criança solitária, esforçada, que tenta não desiludir nem aborrecer ninguém.

A luta diária pela autoestima, pelo exigente trabalho de professora, pela força para tratar dos pais sem ter irmãos com quem dividir a mágoa, e depois, quando se vão, o sofrimento de viver sem o amor deles. Apesar de não termos um grande acontecimento por trás, a não ser o seu retorno de Moçambique, sentimos uma dureza constante na vida da nossa narradora, que nos prova que a vida normal, diária, quotidiana, é mesmo dura, e que não fazemos ideia do que está por trás das pessoas com as quais nos cruzamos, como por exemplo nos transportes públicos, embora raramente nos lembremos disso. Maria Luísa enfrenta essa dureza sem nunca perder as forças.

Um livro muito pessoal, uma espécie de diário, uma escrita nua e sem medos, onde não há personagens, há pessoas que batalham diariamente por amor, dignidade e por cumprir todas as obrigações sociais, com a acrescida dificuldade de estarem fora das normas de aceitação padrão. Para mim é uma história de amor, de superação e de inspiração. Quanto à escrita, achei-a acessível, envolvente e acima de tudo realista. 

Das opiniões que andei a cuscar, vi-a comparada com a Dulce Maria Cardoso, de facto imagino-as amigas, pelas semelhanças que partilham, como o de serem ambas retornadas, professoras de letras, terem idades aproximadas, e evidentemente serem ambas escritoras. Não concordo com a parecença a nível literário, na verdade, se tiver que fazer uma forçada comparação, senti coisas parecidas ao ler "A Gorda" às que senti quando li "Jesus Cristo bebia cerveja de Afonso Cruz, talvez pela verosimilhança das personagens.

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