A Natureza da Mordida de Carla Madeira, 2018
Silêncios que viram angústias em histórias inacabadas

Foi assim que me vi sem nenhum novo livro de Carla Madeira e assim terei de sobreviver. Vou dedicar 2026 a encontrar novos autores, que espero arrebatadores, tal como considero Carla Madeira. Desafio-me a mim própria, como forma de superar esta tristeza: não ler nada de um autor que já conheça. Bem difícil e até desconfortável, agora que deixei por escrito (imagine-se que saí um novo livro da Carla). Assim sendo, um livro que recebi no Natal vai ter de ficar um ano a marinar, ou então, faço um parêntesis ao meu desafio. Vamos ver como corre, mas se é para falhar, que não seja já no início do ano, até para mais não há essa necessidade, visto ter recebido outros exemplares que cumprem o requisito.
Após a conclusão desta obra, que terá sido a segunda a vir ao mundo das três publicadas pela citada autora, "Tudo é Rio" continua no topo das minhas preferências, quer quando comparada com as suas duas irmãs, quer quando comparada com todos os livros que já li. Principalmente pela forma como aborda um tema tão pesado com desembaraço, pelas pessoas verdadeiramente humanas e pela esperança, que em "Véspera" não encontramos.
Em "A Natureza da Mordida" voltamos um tema difícil, que a autora simplifica com a sua bela forma de conjugar palavras que dão frases, que desaguam em personagens com as quais nos identificamos naturalmente. O prazer da leitura é potenciado pela ginga que já muito gabei dos autores sul americanos. Ela escreve de forma leve, sem ser vazia e isso é um dom que invejo. Neste livro temos menos ação e mais diálogo, é desta forma que entramos na narrativa, através da conversa entre duas mulheres que se cruzaram num café numa avenida num domingo solarengo, algo bastante plausível de acontecer. O novelo vai-se desenrolando, nunca até ao fim, claro. No início, temos pensamentos muito poéticos, ainda poucos esclarecimentos dos contornos das histórias que cada uma vai contando, mas estas não se demoram a desenrolarem para que percebamos o início, ao qual estamos constantemente a voltar, para que se contextualize as bonitas frases aí produzidas.
Mais uma vez, somos levados até ao limbo da ética, da decência, à fragilidade de toda a gente, ao ponto fulcral na obra de Carla Madeira: aquilo que não é dito, criando assim, abismos dentro e fora das pessoas, isolando-as.
Dizer que gostei muito não é suficiente. Fácil de ler, de empatizar, de visualizar, sem sermos engolidos por nenhum portal asfixiante de dor. Maravilhoso.
Não foi com este livro que dei por terminadas as leituras de 2025, mas desvendo que o acabei muito bem servida também pela mão de uma nova escritora espanhola. Hoje, primeiro dia de 2026, enquanto recupero de uma virose descomunal, entro sem quebrar o meu auto-desafio, nas leituras de 2026, que desejo avassaladoras, tanto para mim, como para o estimado leitor que pacientemente me lê. Aproveito para agradecer a sua visita e pedir-lhe humildemente sugestões literárias para um 2026 supremo.