Caruncho de Layla Martínez, 2021
A luta pela sobrevivência numa casa assombrada.

De uma autora jovem, ainda não têm 40 anos, este livro, magnetizou-me mal lhe pus a vista em cima. O título, a capa, a a sinopse atraíram-me. Trata-se de uma obra muito curta, que intercala os capítulos entre avó e neta, vítimas tanto da casa onde habitam, quanto da comunidade rural onde se inserem, no pós guerra civil espanhola.
Simpatizo com livros com casas como protagonistas, como é o caso da "A Casa Holandesa" lida há pouquíssimo tempo, ou "A Casa dos Espíritos" que me ancorou à literatura, "O Segredo da Casa de Riverton", envolvente, ou "As Regras da Casa da Sidra", incrível e para acabar "Rebecca" onde a mansão se funde com a ação.Tudo casas que albergam várias vidas, várias gerações, segredos, aflições, dramas, são elas próprias livros que só precisam de intérprete.
Esta narrativa é pujante, se fosse um filme é daqueles que a lente da câmara parece estar sempre suja. Difuso, perturbador, às vezes irascível e áspero. Começa com a construção de uma casa sob o sofrimento de outras mulheres e isso será uma sentença para as gerações futuras. O mundo que as rodeia é insensível e bruto e elas respondem com vingança, tirando trabalho ao destino agindo elas próprias. Mas, essa vingança recaí sobre as iguais a elas, e nunca sobre os que mandam em tudo.
Um livro sobre desigualdade, solidão, loucura, segregação e o obscuro. É a história daquela casa assombrada com a qual nos assustam na infância e que nos deixa para sempre desconfortáveis ao passar por ela.
Parece quase impossível escrever em poucas páginas, porque obriga a racionar frases, a descrições diminuídas, a anular adjectivos, e ainda assim construir todo um drama com densidade, coeso e vivo. Pelo contrário, numa narrativa extensa, acima das 500 páginas (como o que estou a ler agora), há espaço para pormenores insignificantes, que eu aprecio, recordações, descrições, insignificânicas, pensamentos longos e o conforto do contexto. Portanto um sincero louvor para "Caruncho", que é um murro nas águas paradas, escrito num fôlego, direto, sombrio e arrepiante. Fez-me voltar àquela aura negra da alma humana de "O Quinto Filho" de Doris Lessing.