Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Dona Leitura - livros e devaneios

Este sítio na vasta internet pretende ser uma partilha das minhas opiniões, sinceras mas polidas, sem qualquer rigor de qualquer espécie, sobre os livros que vou lendo e também outras divagações.

Dona Leitura - livros e devaneios

Este sítio na vasta internet pretende ser uma partilha das minhas opiniões, sinceras mas polidas, sem qualquer rigor de qualquer espécie, sobre os livros que vou lendo e também outras divagações.

20.02.24

Livros menos conhecidos mas admiráveis - parte II

Continuação dos meus livros preferidos


Dona Leitura

Continuo aqui o post sobre os livros que estimo e tenho em alta consideração, mas que acho que não estão devidamente disseminados. Nesta segunda parte as obras são mais populares, ainda assim, na minha perspetiva, não o suficiente.

"O Assassino Cego" de Margaret Atwood, 2000 - Bem sei que esta autora é mais conhecida pela obra distópica "The Handmaid's Tale", que originou a famosa série, que nunca vi nem li. "O Assassino Cego", vencedor do Booker Prize no ano do seu lançamento, foi soberbo. Bastante distinto da "A História de uma Serva"(tradução), relato-nos a vida agridoce de duas irmãs, da rivalidade ao amor/ódio. Não me lembro bem, mas recordo-me da experiência que foi a sua leitura, absolutamente incrível. Somos cosidos à trama que a autora vai tecendo e de lá não conseguimos escapar. Uma história assombrosa, mas delicada, onde nos deparamos com os mistérios da vida das pessoas que julgamos conhecer. Este livro veio parar às minhas mãos via recomendação da gerente da livraria onde trabalhei, e fico feliz pelo sucedido. Uma narrativa distinta e admirável.

O-Aaino-Cego.jpg

"Rebecca" de Daphne du Maurier, 1938 - Vi o filme há pouco tempo, a versão de 2020, portanto tenho a história bem presente. O livro li há muitos anos, não sei bem porquê, mas ainda bem que se deu. Escrito com calma e ponderação, vamos conhecendo as personagens e os seus segredos. Um final arrebatador, antagónico à narrativa precedente, há um ritmo ascendente, um suspense palpável, uma escrita sofisticada e um ambiente tenso. Também gostei bastante do filme, reflete bem o ambiente que senti ao ler "Rebecca". Uma mulher normal que conhece um misterioso homem, viúvo, reservado. Casam-se e vão viver para a sua mansão, onde é tratada como uma sombra da anterior mulher, e vai tentando imiscuir-se no gélido quotidiano da casa, tentando deslindar a história da sua antecessora.

Rebecca

"A Campânula de Vidro" de Sylvia Plath, 1963 - Mais uma vez não sei bem como vim parar a este livro, deve ter sido obra e graça do espírito santo bibliotecário. Blasfémias à parte, é um livro atroador, principalmente porque é semi-autobiográfico. O ano da sua publicação coincide com o ano da morte de Sylvia, com apenas 31 anos e 2 filhos pequenos. Apesar de ser um relato de sucessivas tentativas de suicídio, não é negro nem tenebroso. Eu achei-o irónico e sapiente. Uma mulher inteligentíssima, com uma perceção da vida muito própria e sofrida. Em retrospetiva, acho profundamente triste pela dor subjacente da autora e dos seus, mas quando o li, não o achei pesaroso. Um livro que não sendo completamente abstrato nos temas mais filosóficos, o é nas subcamdas da escrita, se tivermos com essa disposição. Se não tivermos é à mesma perfeitamente inteligível.

A Campânula de vidro

A Guerra do fim do Mundo de Mario Vargas Llosa, 1981 - Só li dois livros do prémio Nobel da literatura de 2010, e constam os dois aqui, nesta minha lista de livros admiráveis. Este livro é uma catedral. Um grandioso monumento. Uma muralha formidável. Requereu sem dúvida muita pesquisa e preparação, e retrata toda uma epopeia do exército pelos confins do Brasil, na demanda da implementação da recém republica, na homogeneização das regras, como as do sistema métrico, dos censos ou da moeda, numa seita, liderada por uma espécie de Jesus Cristo auto-proclamado, que resolveu considerar que isso era coisa do Diabo, ou dos cães, como dizem os próprios. Esta milícia de renegados da sociedade, desde assassinos, ladrões, prostitutas e foras da lei, enfrentam estoicamente os sucessivos exércitos com uma fé assustadoramente louca no conselheiro. Narrada de forma vivida, pela mão de um jornalista pouco apto, cruzam-se várias histórias, e todas elas ricas. A velocidade é constante, e à boa maneira dos autores sul-americanos, não romantizam o sofrimento, tratam-no como igual. Por vezes é-nos dado ver o futuro o que nos aumenta o apetite da leitura, para saber como é que esse futuro vai suceder. Nota-se nesta obra de engenharia magnífica, umas fundações fortes e bem fundamentadas que deixam à vista uma construção robusta, à prova das maiores intempéries, à semelhança do percurso penoso deste exército obstinado. Confesso que pode não ser o livro mais fácil de ler para quem procura estar sempre a ser entretido. Não, este livro leva o seu tempo, ao longo das suas mais de 500 páginas, e se achamos que quando a guerra finalmente se dá e  o ritmo aumenta exponencialmente, não acontece, a ação desenrola-se como tem vindo a acontecer até agora, com foco na descrição e no detalhes riquíssimos e principalmente nas personagens que temos vindo a conhecer, sem aborrecimentos e morais fastidiosas. Baseado em acontecimentos históricos de final do século XIX. Uma obra monumental.

A Guerra do Fim do Mundo

Travessuras da Menina Má de Mario Vargas Llosa, 2006 - Bestial. Completamente distinto do anterior, esta é uma história de amor, por vezes unilateral, que desliza ao longo da vida das duas personagens principais, onde por mais voltas que a vida dê acabam invariavelmente um no outro. Há um sem fim de tropelias a cargo da menina má e uma paciência e amor infinitos do nosso narrador. Esta obra é mais popular, e que bom, ainda assim, deixo-a aqui. Quem quiser pegar nela não se vai arrepender e vai ter um prazer inqualificável na sua leitura.

Travessuras da Menina Má