Tudo É Rio, Carla Madeira, 2014
Uma história de dor e esperança.

Como é que um livro escrito em português, só chega a Portugal, quase 10 anos depois do seu lançamento no Brasil? Como se ainda estivéssemos no século XV e viesse a bordo de uma embarcação! Incompreensível! Imagino toda a literatura brasileira que estamos a perder por esta incompetência editorial! Um livro popularuxo dos EUA chega cá em menos de nada, e o de um autor lusófono demora quase 1 década! Muito triste! Desculpem o desabafo! Precisava de tirar cá para fora!
Ao contrário do que se sucedeu com o livro lido imediatamente antes, "A Breve Vida das Flores", em que me assaltou um pressentimento de que não ia gostar e o mesmo se concretizou, com este foi exatamente o oposto, o palpite era o de que ia amar. Não está disponível na biblioteca que frequento, sabe-se lá quanto tempo demorará a chegar, e face a esta impaciência, pedi-o para o natal e o desejo concretizou-se, juntamente com o "Véspera", em andamento, na altura os únicos editados cá, entretanto, felizmente, já saiu mais um: "A Natureza da Mordida". Bem, a minha intuição estava corretíssima, amei demais! Ainda estou com o português do Brasil embrenhado.
Uma história sofrida, escrita sem amarras à dor, onde acompanhamos intensamente a vida de um casal selvaticamente apaixonado que tenta sobreviver à onda de dor que os abalroa. Descemos mesmo ao fundo do poço, um lugar escuro, húmido e frio, onde só os pesadelos resistem. Mas o que este livro tem de bom, é que não é só escuridão, é também Verão longo, e uma brisa amena de esperança. Uma escrita vertiginosa, senti que estava sempre a pique, largar o livro e viver a minha vida foi um processo árduo. Lembrava-me muitas vezes de Dalva e Venâncio ao longo do dia, com vontade de entender como iriam ultrapassar algo intransponível. Chorei desalmadamente e foi terapêutico.
Dizer que existe uma personagem de seu nome Aurora, que citando "tinha nome de amanhecer" e "Aurora iluminava as pessoas" que me conquistou; mas há nome mais bonito que este?
A escrita é desconcertante de boa, tanto dá para rir como para chorar, é crua, mas sensível. Fiquei absolutamente espantada com este tipo de narrativa, que não me é completamente nova, uma vez que já todos sabem que sou apaixonada pelos escritores sul americanos, e a Carla Madeira é isso mesmo, uma escritora sul-americana, quente, intensa, leve e livre.
Os capítulos são muito curtos e intercalados com as diferentes personagens, o que contribuí para um maior ritmo e dinâmica. A escrita é poética e convida à reflexão perante a beleza e honestidade de alguns pensamentos.
"O passado é eterno"
"A liberdade é uma conversa fiada, é palavra de efeito, sempre no meio de uma frase para impressionar os desatentos, no fundo estamos presos à incapacidade de ser outra coisa diferente do que somos, do que a história da gente tramou."
A quem tiver interesse, posso emprestar o livro!