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Dona Leitura - livros e devaneios

Este sítio na vasta internet pretende ser uma partilha das minhas opiniões, sinceras mas polidas, sem qualquer rigor de qualquer espécie, sobre os livros que vou lendo e também outras divagações.

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04.04.24

Véspera, Carla Madeira, 2021

Uma original e atual reivenção de uma história do livro do Gênesis


Dona Leitura

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Li  "Véspera" de seguida a "Tudo é Rio" e foi emocionalmente estafante. Ambas as histórias envolvem acontecimentos traumáticos com crianças, (não se assuste o leitor, são circunstanciais) e uma viagem longa e intensa pela natureza humana.

Em "Véspera", noto uma evolução na escrita de Carla Madeira, os capítulos são maiores, há mais personagens e interação entre elas, envolve mais passado das mesmas, para além do tecido da narrativa ser mais amplo, ou seja, temos vários prismas que não retratam o mesmo acontecimento, mas que ajudam a construir o enredo, nomeadamente o passado, onde na verdade se começou a escrever o futuro. Esta história assenta mesmo nisso, de como o que vivemos na infância carrega as decisões em adulto, e por vezes marcam irremediavelmente os nossos filhos.

Nesta narrativa, talvez devido ao facto de termos mais personagens, nem todas são aprofundadas, com muita pena minha, eu até diria que os atores principais são os menos desenvolvidos, o que é curioso, mas também dá azo a pontas soltas. 

"Véspera" reconta uma história bíblica bem conhecida, com a frescura da atualidade, com muitas derivações e de forma muito original, que nos propõe a pensar nas coisas pequenas que escondem as maiores e que a vida vai passando, sem que se esclareçam situações dúbias ou desconfortáveis, colocando sistematicamente água na fervura, culminando, obviamente, na ebulição que tanto se tentou retardar, queimando quem nada tem que ver com os dramas mal resolvidos do passado. Acrescentar que esta história me fez recordar uma outra: "A Leste do Paraíso" de John Steinbeck, a qual também tenho muito em conta.

Gostei muito, é um livro que nos dá muito, sem revelar tudo, aquela brisa de esperança de em "Tudo é Rio" aqui transforma-se num vento gelado, que nos encarapinha por fazer lembrar uma daquelas notícias arrepiantes que vemos acontecer nas televisão e à qual damos a importância de meia dúzia de comentários, ignorando todos os meandros, culpando levianamente este e aquele, mas, não seremos todos culpados?

Vale a pena viver para poder ler estas obras de uma beleza transbordante e que nos acrescentam infinitamente.

"Nas famílias, desiste-se muito das palavras para evitar exílios e, assim, nascem desertos."

Disponível para empréstimo!

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